1. Sobre as vivências da pobreza e os currículos

Feitos esses primeiros apontamentos sobre currículo, passamos à discussão sobre currículo e pobreza com um questionamento fundamental: em quem devemos pensar quando nos propomos a articular currículo e pobreza? A resposta é simples, quase evidente, embora o tema seja extremamente complexo. Devemos pensar nos milhões de crianças e adolescentes submetidos à pobreza (considerando os parâmetros que indicam a pobreza e a pobreza extrema2) que estão nas escolas ou que em breve estarão lá. Essas crianças trazem vivências, saberes, valores, identidades construídas a partir de suas experiências. E o que encontram na escola?

É possível incorporar uma reflexão sobre a pobreza nos currículos de Educação Básica? As respostas não são simples, pois as vivências e sofrimentos da pobreza, bem como os processos históricos de sua produção são complexos, e tentar tratar nos currículos essas vivências e essa história é uma tarefa extremamente desafiante. Talvez por isso a pobreza, suas vivências, os pobres e a história de sua produção tenham estado ausentes tanto nos currículos de Educação Básica quanto nos de formação de seus profissionais.

No Brasil, os 17 milhões de crianças, adolescentes e jovens beneficiários(as) do Programa Bolsa Família que chegam às escolas públicas com vivências de pobreza e extrema pobreza poderão ter um percurso escolar até exitoso e saírem da escola sem nunca terem ouvido falar da pobreza, sem ter recebido explicações, conhecimentos que os ajudem a entender suas vivências e os processos históricos da produção de sua condição, ou seja, por que são condenados a essa situação. Na maioria das escolas, os professores e gestores já devem ter percebido que muitos alunos vivem na pobreza ou na pobreza extrema, visto que a extensa quantidade de dados gerados pelo Programa Bolsa Família nos permite saber a quantidade de alunos e alunas menores de 17 anos que, por serem de famílias cuja renda per capita é menor que o valor da linha de pobreza, participam do PBF. Do total de alunos e alunas matriculados nas escolas públicas brasileiras de Educação Básica, mais de 45% são participantes do programa.

Figura produzida pela Equipe de Criação e Desenvolvimento com base no Resumo Técnico do Censo Escolar 2013
(INEP, 2014, p. 13).

Mas será que esses coletivos de docentes-educadores(as) que recebem esses milhões de educandos(as) pobres estão se perguntando como incorporar, nos currículos, nas áreas do conhecimento, no material didático, elementos que ajudem não apenas os(as) alunos(as) pobres, mas todos(as) a entenderem uma realidade tão persistente em nossa sociedade, nas cidades e nos campos, tal como é a pobreza?

Essa realidade impõe a necessidade de uma reflexão sobre a pobreza no âmbito escolar, ou seja, ela deve ser incorporada aos currículos. Um caminho para articular pobreza e currículo pode começar por identificar que experiências, que práticas acontecem nas escolas que procuram incorporar as vivências e a história da pobreza nos currículos, seja de Educação Básica – da educação infantil ao ensino médio e a EJA –, seja nos currículos dos cursos de licenciatura. A ideia é procurar compreender o currículo na prática, ou seja, se professores-educadores(as) tratam desse assunto e como incorporam a pobreza nos currículos, nos temas de estudo e no material didático.

Para tanto, o primeiro passo é identificar os obstáculos encontrados por esses coletivos de profissionais para relacionar pobreza e currículo, e também perceber como a pobreza é abordada nos documentos legais que orientam o currículo na escola. Se analisarmos as Diretrizes Curriculares de Educação Básica e as Diretrizes Curriculares de Formação Docente, perceberemos que as referências à pobreza estão diretamente ligadas ao papel da educação como um dos elementos fundamentais para combatê-la; porém, continua não havendo lugar para as vivências da pobreza e para a discussão da sua produção histórica.

As formas como os currículos abordam a pobreza e os(as) pobres – seja contemplando-os, seja ignorando-os –, tanto na formação de professores como na Educação Básica, refletem-se nas maneiras adotadas pelas escolas para tratar os(as) alunos(as) pobres, suas famílias e suas comunidades. Buscar esse entendimento é um desafio que precisamos encarar de frente para procurar, em conjunto, alternativas que viabilizem, de fato, uma escola de qualidade para todos e todas.