1. Sobre as vivências da pobreza e os currículos

Indagações

Como ponto de partida para tratarmos da relação entre currículo e pobreza, trazemos algumas indagações que poderão ser acrescidas por aquelas que você fizer a partir das suas vivências. Apresentamos essas questões acompanhadas por reflexões. Ao apropriar-se delas, você terá condições de avaliar a sua compreensão sobre a pobreza, sobre a relação entre currículo e pobreza, bem como avaliar o tratamento dado a essa temática no espaço escolar. Com base nisso, poderá pensar, propor e executar ações voltadas para a construção de uma escola que se constitua um espaço efetivo de disseminação dos conhecimentos e de reflexão e transformação da realidade social. 

1ª. INDAGAÇÃO: Haverá lugar nos currículos para a pobreza? Os currículos tratam da produção da pobreza ou a ignoram? Se tratam, eles interpretam a pobreza como uma produção social, econômica, política, cultural, ou como o resultado da sorte e do destino, entendidos em suas formas mais subjetivas? Como o pobre é retratado nesse currículo: como alguém inserido em um contexto sócio-histórico com o qual dialoga e de onde tira seus saberes e sua percepção de mundo, ou como uma pessoa atrasada, preguiçosa, imprevidente, sem valores de empreendedorismo, em suma, como alguém responsável por sua própria condição? Podemos dizer que há uma percepção geral, a qual criticamos, de que os pobres não se esforçam para saírem da pobreza. Sobretudo, são responsabilizados pela sua pobreza por serem supostamente ignorantes, irracionais, analfabetos, sem estudos ou sem cabeça para as letras, sem perseverança em fazer percursos curriculares exitosos. Será que é por aí que se aproximam pobreza, escolarização e currículo? Os conteúdos curriculares tratam da pobreza?

2ª. INDAGAÇÃO: Se entendermos que a pobreza é resultado das relações sociais (econômicas, políticas, culturais), como incorporar essa compreensão no currículo? Tratar da pobreza nos currículos exigirá que se aproximem os conteúdos das diversas áreas do conhecimento que vêm aprofundando, em pesquisas e análises, a produção histórica da pobreza. Se falta essa aproximação ou se ela ainda é lenta e parcial, outra pergunta se impõe: por que, mesmo com a chegada às escolas de milhões de crianças, adolescentes, jovens e adultos submetidos à pobreza – que carregam vivências tão dramáticas da pobreza extrema – os conhecimentos curriculares ignoram ou tratam de maneira secundarizada a riqueza de estudos já existentes nas diversas áreas do conhecimento sobre a pobreza?

3ª. INDAGAÇÃO: Que indagações e conhecimentos os(as) pobres trazem para o currículo? Não podemos apenas tratar das problematizações que vêm dos estudos sobre a pobreza, mas é necessário considerar os questionamentos provocados pelos milhões de alunos(as) pobres com que convivem gestores(as), docentes e estudiosos(as) dos currículos. Essas interrogações tocam nas concepções de conhecimento e de ensino-aprendizagem nos processos de socialização, de formação-humanização; apontam para a função política-ética da escola, da docência e dos currículos, para o direito dos(as) pobres ao conhecimento. Porém, a que conhecimentos eles(as) têm acesso efetivo? Esses sujeitos, que historicamente foram condicionados ao processo de (re)produção da pobreza, não têm direito a conhecer com profundidade essa história?

Feitas essas indagações, apresentamos, na sequência, algumas considerações que possam levar a ações efetivamente capazes de incorporar, de forma intencional e pensada, a pobreza nos currículos.