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Exclusão histórica das populações indígenas e negras no Brasil
 

Muitas são as teorias que tentam dar conta dos processos históricos que levaram a grande maioria da população negra e indígena no Brasil e na América Latina a ocupar posições marginais na vida política e econômica. Listamos alguns autores importantes que tentaram entender esse processo:


Eduardo Galeano

Eduardo Galeano é jornalista e escritor uruguaio, e se debruçou largamente sobre as temáticas da colonização e da origem das desigualdades na América Latina, principalmente em sua obra célebre As veias abertas da América Latina.

"Vindo de Temuco, adormeço na viagem. De repente, os fulgores da paisagem me despertam. O vale de Repocura aparece e resplandece frente aos meus olhos, como se alguém tivesse aberto, de repente, as cortinas de outro mundo.

Mas estas terras já não são, como antes, de todos e de ninguém. Um decreto da ditadura de Pinochet rompeu as comunidades, obrigando os índios à solidão. Eles insistem, porém, em juntar suas pobrezas, e ainda trabalham juntos, dizem juntos: 
— Vocês vivem uma ditadura há quinze anos – explicam aos meus amigos chilenos –. Nós, há cinco séculos.
Nos sentamos em círculo. Estamos reunidos em um centro médico que não tem, nem teve nunca, um médico, nem um estagiário, nem enfermeiro, nem nada.
— A gente é para morrer, e só – diz uma das mulheres. Os índios, culpados por serem incapazes de propriedade privada, não existem.

No Chile não existem índios: apenas chilenos – dizem os cartazes do governo."

(GALEANO, 2002, p. 131)

Retrato de índios mapuche, aos quais se refere Galeano, em meados do século XIX. Fotografia de Cristian E. Valck, Museu Histórico Nacional do Chile.


Darcy Ribeiro

“
Para
 os
 que
 chegavam,
 o
 mundo
 em
 que
 entravam
 era
 a
 arena
 dos
 seus
 ganhos,
 em
 ouros
 e
 glórias,
 ainda
 que
 estas
 fossem
 principalmente
 espirituais,
 ou
 parecessem
 ser,
 como
 ocorria
 com
 os
 missionários.
 Para
 alcançá‐las,
 tudo
 lhes
 era
 concedido,
 uma
 vez
 que
 sua
 ação
 de
 além‐mar,
 por
 mais
 abjeta
 e
 brutal
 que
 chegasse
 a
 ser,
 estava
 previamente
 sacramentada
 pelas
 bulas
 e
 falas
 do
 papa
 e
 do
 rei.
 Eles
 eram,
 ou
 se
 viam,
 como
 novos 
cruzados 
destinados 
a
 assaltar 
e
 saquear 
túmulos 
e 
templos 
de hereges 
indianos. 
Mas 
aqui, 
o 
que 
viam,
 assombrados, 
era 
o 
que 
parecia 
ser uma
 humanidade
 edênica,
 anterior
 à
 que
 havia
 sido
 expulsa
 do
 Paraíso.
 Abre‐se
 com
 esse
 encontro
 um
 tempo
 novo,
 em
 que
 nenhuma
 inocência abrandaria
 sequer
 a
 sanha
 com
 que
 os
 invasores
 se
 lançavam
 sobre
 o
 gentio, 
prontos 
a 
subjugá‐los 
pela 
honra 
de 
Deus
 e 
pela 
prosperidade
 cristã. Só
 hoje,
 na
 esfera
 intelectual,
 repensando
 esse
 desencontro
 se
 pode
 alcançar 
seu 
real 
significado.




Para 
os 
índios 
que 
ali 
estavam,
 nus 
na 
praia, 
o 
mundo 
era 
um 
luxo 
de 
se viver, tão 
rico de 
aves, 
de 
peixes, 
de 
raízes, 
de 
frutos, 
de 
flores, 
de 
sementes, que 
podia 
dar 
as 
alegrias 
de 
caçar, 
de 
pescar, 
de 
plantar 
e 
colher
 a 
quanta gente 
aqui 
viesse 
ter. 
Na
 sua 
concepção 
sábia 
e 
singela,
 a 
vida 
era 
dádiva 
de deuses 
bons, 
que 
lhes 
doaram 
esplêndidos 
corpos, 
bons 
de 
andar, 
de 
correr, de 
nadar, 
de 
dançar, 
de 
lutar. 
Olhos 
bons 
de 
ver 
todas 
as 
cores, 
suas 
luzes 
e suas
 sombras.
 Ouvidos
 capazes
 da
 alegria
 de
 ouvir
 vozes
 estridentes
 ou melódicas,
 cantos
 graves
 e
 agudos
 e
 toda
 a
 sorte
 de
 sons
 que
 há.
 Narizes
 competentíssimos 
para 
fungar
 e 
cheirar 
catingas
 e 
odores. 
Bocas
 magníficas de
 degustar
 comidas
 doces
 e
 amargas,
 salgadas
 e
 azedas,
 tirando
 de
 cada
 qual 
o 
gozo 
que 
podia 
dar. 
E, 
sobretudo,
 sexos 
opostos 
e
 complementares, feitos 
para 
as 
alegrias 
do 
amor”. (RIBEIRO, 1995, p. 44-45)

Trecho do livro O povo brasileiro, de autoria de Darcy Ribeiro, antropólogo, novelista e político brasileiro. O autor estava interessado em entender como foi possível a consolidação de um país de proporções continentais como o nosso. Para isso, fez-se necessário passar pelo histórico de conflitos e influências mútuas que se travaram entre negros, índios e brancos ao longo destes cinco séculos de história. Você pode conhecer melhor o pensamento de Darcy Ribeiro e suas considerações sobre a formação do povo brasileiro e suas desigualdades no documentário dirigido por Isa Grinspum Ferraz e também intitulado O povo brasileiro.

Índios atravessando um riacho. Pintura de Jean-Baptiste Debret (cerca de 1825), Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand.


Florestan Fernandes

“Na verdade, nos acostumamos à situação existente no Brasil e confundimos tolerância racial com democracia racial. Para que esta última exista, não é suficiente que haja alguma harmonia nas relações sociais de pessoas pertencentes a estoques raciais diferentes ou que pertencem a 'Raças' distintas. Democracia significa, fundamentalmente, igualdade social, econômica e política. Ora, no Brasil, ainda hoje não conseguimos construir uma sociedade democrática nem mesmo para os 'brancos' das elites tradicionais e das classes médias em florescimento.  É uma confusão, sob muitos aspectos, farisaica, pretender que o negro e o mulato contem com igualdade de oportunidades diante do branco, em termos de renda, de prestígio social e de poder.

O padrão brasileiro de relação racial, ainda hoje dominante, foi construído para uma sociedade escravista, ou seja, para manter o 'negro' sob sujeição do 'branco'. Enquanto esse padrão de relação racial não for abolido, a distância econômica, social e política entre 'negro' e 'branco' será grande, embora tal coisa não seja reconhecida de modo aberto, honesto e explícito.”  (FERNANDES, 2006, p. 172)

Escravos transportando homens em uma liteira. Fotografia de Alberto Henschel (cerca de 1869).

Para Florestan Fernandes, embora a separação e o conflito entre raças no Brasil não sejam tão evidentes quanto aqueles que se manifestam nos Estados Unidos ou na África do Sul, as condições de existência de uma verdadeira “democracia racial brasileira” – tal como pretendida por autores clássicos, como Gilberto Freyre – estariam longe de se verificar na prática. De acordo com o autor, quando nos atemos a desigualdades econômicas e políticas que se reproduzem ao longo da história brasileira, percebemos uma profunda diferença nas condições de acesso e mobilidade social entre negros e brancos.


Roberto DaMatta

“Não se sustenta a tese de Gilberto Freyre (apresentada sistematicamente em Casa Grande & Senzala), segundo a qual o contato com o mouro (e com a mulher moura) havia predisposto o 'caráter nacional' do lusitano a uma interação aberta e igualitária com índios e negros. Muito ao contrário, o que se sabe de comunidades mouras e judias em Portugal, permite dizer que o controle social e político de etnias alienígenas era agudo, senão brutal, como foi o caso dos judeus. Temos aqui uma sociedade já familiarizada com formas de segregação social, cuja legitimidade seria marcada, na expressão de Godinho, pela origem 'rácica' e religiosa.” (DAMATTA, 1981, p. 67)

Fotografias de Marc Ferrez (1888; 1883) mostram o trabalho escravo em minas e cafezais no Brasil do século XIX.

O trecho é do antropólogo Roberto DaMatta, que faz frente à teoria de que os colonizadores portugueses teriam sido mais dóceis em seu contato com os(as) escravos(as) negros(as) e os(as) nativos(as) indígenas do que outros colonizadores – a chamada “democracia racial brasileira.” Para DaMatta, muito pelo contrário, a atualidade política, social e econômica brasileira apresenta um quadro bastante agressivo e contrastante dessa relação inter-racial, calcada em séculos de violência de uma parte sobre a outra.