4. Pobreza e reprodução dos diversos em desiguais

Quando passamos a observar os processos sociais e políticos de produção da pobreza, somos obrigados(as) a nos indagar sobre que coletivos são submetidos a ela. Em nossa história, percebemos que os grupos que diferem da raça, da etnia, do gênero e da classe dominantes são os Outros, alijados do acesso a direitos básicos. Perpetuar a situação de pobreza desses coletivos tem sido, ao longo de nossa história social e política, a forma mais brutal de fazê-los permanecer nessa condição de inferiores, oprimidos, em desigualdade de acesso aos direitos sociais, políticos e econômicos.

Essa é uma história que perdura desde a colonização. A produção dos(as) pobres é articulada e reforçada com os processos sociais que conferem assimetria à diversidade, reduzindo o diferente à condição de inferioridade. No contexto social e político, isso se deu pela expropriação violenta de suas terras, seus territórios, suas culturas, suas memórias, suas histórias, suas identidades, suas línguas, sua visão de mundo e de si mesmos(as). Esses coletivos foram decretados inferiores6 e mantidos à margem da produção intelectual, cultural e ética da humanidade (QUIJANO, 2005).

Os ninguéns

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.

 

Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano (2002).



Para compreender com profundidade o fenômeno da pobreza e da desigualdade social, é preciso dar importância, nos cursos de formação inicial e continuada, à discussão sobre os processos históricos de transformação dos sujeitos "diferentes" – vistos do ponto de vista dos dominadores – em sujeitos inferiores, pobres, desprovidos de terra, teto, poder, renda, trabalho e escola. Da análise desse contexto, é possível chegar à constatação de que políticas e programas de combate à pobreza não surtirão grandes efeitos caso se limitem à distribuição de renda, de alimentação e até de escolarização, porque a conformação dos grupos diferentes em desiguais se dá em contínua relação política. Nesse sentido, é necessário que essas iniciativas sejam acompanhadas de políticas eficientes de combate às desigualdades e de reconhecimento positivo das diversidades sócio-étnico-raciais e de gênero.  

A maneira de tratar os grupos diferentes é parte de uma relação política. A civilização-educação é e foi pensada como uma relação colonialista e racial, cujo paradigma é converter os(as) subumanos(as) em humanos(as)7. Toda a história de conflitos e precariedades da educação das comunidades pobres é influenciada por essas marcas e relações políticas de diferenciação desigual. Com relação ao lugar em que nós, profissionais da educação, estamos situados(as), será necessário, para avançar na compreensão dessas questões, ter uma postura crítica diante da história da educação, que está impregnada de representações e tratos inferiorizantes dos Outros.

Uma breve história da educação no Brasil

Se olharmos de perto para a história da educação no Brasil, observaremos claramente que o processo político de produção da desigualdade está assinalado desde o início. Como se caracterizava a educação na época do Brasil Colônia? A que processo de ‘’educação’’ eram submetidos os grupos indígenas? Em tempos de democratização, quem tinha o direito à educação? Como se deu a ampliação desse direito ao longo do tempo? Essas são questões que o vídeo Breve história da educação no Brasil resumidamente apresenta, fazendo um panorama sobre a história da educação no país, desde quando era administrada pelos jesuítas, passando pelos processos de institucionalização do ensino, pelo regime militar, até a transição democrática.

-Vídeo-
Breve história da educação no Brasil, produzido por UNIVESP TV (2010) 

Percebemos, por meio dessa linha do tempo, a que serviu o processo de educação ao longo da história. Da doutrinação religiosa à formação restrita para o trabalho no despontar da Revolução Industrial, a educação mostrou ser sinônimo de produção de desigualdade, de exclusão política, social e cultural